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Cartografias do Eu: Sentir, pensar, existir*

  Existe uma pergunta que se insinua como brisa e, às vezes, ruge como tempestade: O que Acha de Si Mesmo? Não é uma questão que se resolve com espelhos, diagnósticos ou biografias. É um convite ao mergulho, uma travessia por corredores internos que mudam de forma conforme os olhos que os percorrem.  Pensar sobre si é como tentar abraçar a própria sombra. Ela escapa, dança, se alonga, se encolhe. O “eu” não é uma estátua, mas um rio, ora sereno, ora turbulento. E nesse fluxo, sentir e pensar se entrelaçam como amantes que não sabem se estão se encontrando ou se despedindo. Na clínica filosófica, essa pergunta se abre como uma flor que não quer ser colhida, apenas contemplada. O que achamos de nós mesmos não é uma decisão final, mas uma paisagem que muda com a luz, com o tempo, com o olhar. Há dias em que me acho vasto, como se coubesse o mundo inteiro em mim. Em outros, sou estreito, um beco sem saída. Às vezes sou ideia, outras apenas pele. Sou o que sinto, mas também o...

Primavera Irracional*

“Eu fechei os olhos para lembrar com todos os meus votos a verdadeira noite, a noite liberta da sua máscara de horrores, ela, a suprema reguladora e consoladora...”                                                                                 André Breton   Equinócio que esconde a verdadeira face do mal, os homens não descansam. Nunca descansam. A humanidade vive para atravessar todas as adversidades, alguns destroem a vida, queimam as ideias e deixam a Terra arder. No hemisfério dos sonhos, a vida é salva pela natureza, os homens são excluídos pela ganância, que só existe no cérebro dos que dizem ser racionais. Nada separa o que está em pleno movimento de viver da finitude. Existem os que creem no domínio das questões ...

Resenha Crítica*

"Pérolas Imperfeitas – Apontamentos sobre as lógicas do improvável ".  Ed. Sulina. Porto Alegre/RS. 2012, 142 p.   Editora Sulina | Editora Meridional | Página Inicial   Num estilo que dança por entre “a ilusão da realidade e a realidade da ilusão” o professor e filósofo clínico Hélio Strassburger compartilha com seus leitores suas experiências, vivências e desavenças em seu caminhar como filósofo clínico. Como um passeio pelos recônditos espaços da mente humana o autor nos presenteia com 28 pérolas que ainda imperfeitas na medida em que se constroem na busca pelo direito de serem únicas, singulares e livres das tipologias e semelhanças que mergulham o filósofo clínico num “sobrevoo que não aterrissa”. O livro nos conduz pelos labirintos da relação entre o filósofo clínico e seu partilhante onde a interseção clínica ganha a forma de sentido para o partilhante à medida que seus ainda não traduzidos e interditados conteúdos ganham vida para o filósofo clínico. O livro vai a...

Um jardim de possibilidades****

O horário da manhã em dias de clima ameno, revela o orvalho nas roseiras em flor. A luz da aurora é de uma nitidez especial para registrar as cores do jardim. Ao percepcionar os detalhes das pétalas, não raras vezes se encontra minúsculos visitantes em busca de abrigo, comida, alguns namorados. O que é que esses bichinhos podem nos revelar sobre o micro bioma que se criou ali? Em direção às sensações, o cheiro de cada rosa fotografada se mistura na mente, formando um perfume natural daquele efêmero instante disponível. Amarelos, brancos, rosas, laranjas, vermelhos misturados aos diversos tons de verde, compõem o remédio que a vista precisa para iniciar bem o dia. Com um espectro de cores e aromas, a cada floração essa festa aparece. É um fenômeno importante na vida da partilhante. E nem precisa esperar pela primavera, é no inverno que as flores de amor-perfeito desabrocham. Para quem possui o submodo percepcionar, todas as estações podem ser fonte de inspiração. O jardim pensado integr...

Humanidade encapsulada*

Vocês já se depararam com profissionais que, de tão padronizadamente mergulhados no papel que representam, se pasteurizam tanto a ponto de encapsularem sua humanidade?! Há muito os tenho encontrado, nas mais diversas áreas. Percebo-os muito próximos, invadindo territórios esquecidos, não cultivados, abandonados. O assombroso é que o mercado não só ainda anseia como replica esses perfis, não raro fruto de linha de montagens do tipo: transforme-se em oito passos e seja você o sucesso! Sucesso que se traduz comumente no endosso do mesmo, ainda que travestido de diferente. Por um certo momento eu de fato pensei que essa Pandemia fosse suavizar o arrogante rompante de tudo conhecer e dominar. De reduzir visões de mundo ao enquadramento de nossos gostos e preferências, hermeticamente vedados e selados como se verdade fossem. A mais pura e absoluta. O resto é resto e que se dane, melhor ignorar… Nesse abissal individualismo o outro é aceito como igual, desde que reitere caminhos e não questio...

Âncoras*

'Navegar é preciso; viver não é preciso'              (Fernando Pessoa)   Navegar e viver costumam ser desafios ao sabor dos ventos e das marés, como uma flecha lançada ao vento, sem rumo nem piedade, sem desculpas, sem destino, talvez só aquele que obstinadamente julgamos traçar. Não há garantias e pode não haver volta... e a cada movimento, entropicamente, detonamos o estoque de energia que nos foi reservado, sem nos darmos conta de que alguma coisa se esvaiu, de que algo precioso transmutou. Sabemos que emergimos do ventre e que vamos findar no ocaso da existência. O rio que corre entre essas duas margens, que por alguma razão somos impelidos a saltar, é que costuma fazer a diferença. Navegar é tão preciso quanto viver e viver é tão impreciso quanto navegar... uns se debatem sem alcançar suas ilhas distantes; outros buscam âncoras que os salvem daquilo que nem mesmo suspeitam, pois para ter qualquer migalha de conhecimento, virtude, experiência...

Jornada Protagonista*

A palavra é um manifesto da razão e da denúncia, toda vez que as nossas impressões transbordam e expressam numa intensidade de duração e alcance capaz de tocar nas percepções alheias. Na razão podemos justificar a temporalidade, e o quanto, as vezes, percebemos pueril e passageiro os sabores e dissabores da vida, sempre tão pertinentes para nos ensinar que o ser só pode mesmo transgredir ou transcender. E, cabe a cada um de nós, a escolha de ser mais um cativo ou mais um protagonista, nessa jornada tão própria de existir sentindo tanto... Sentir muito é o que faz despertar a possibilidade de perceber mais dia menos dia, que tanto a liberdade quanto a prisão são decisões desafiadoras, que sempre tendem na direção de um desfecho capaz de nos oportunizar sermos senhores das nossas próprias escolhas, enquanto, necessariamente, nos lançamos como reféns das consequências. Curiosamente, quando uma sensação de felicidade precisa ser justificada ou anunciada já se trata de uma ilusão, pois a su...

Auschwitz, até quando?*

Um leitor me perguntou o que penso das escolas cívico-militares - um modelo escolar que se dissemina por Santa Catarina, pelo Paraná, por São Paulo. Vou responder do modo mais claro possível. As escolas cívico-militares são laboratórios de propagação do fascismo. * * * Explico. O que caracteriza o fascismo na Educação não está exatamente no conteúdo curricular explícito; está no currículo oculto. Uma escola cuja prática seja toda voltada ao adestramento de corpos e mentes; que ensine a obediência à autoridade (e pior: a obediência à autoridade militar); que não incentive a literatura, a Filosofia e as artes; que desencoraje o pensamento crítico - essa escola contribui para a propagação do fascismo. As escolas cívico-militares são instituições fascistas - e essa afirmação dura não é exagero retórico. * * * Estou com Adorno: o primeiro objetivo de toda a Educação deve ser o de impedir que Auschwitz aconteça - Auschwitz entendida como a barbárie, como a perda da sensibilidade autocrítica,...

Pretéritos Imperfeitos*

“A experiência trivial do dia a dia sempre nos confirma alguma antiga profecia (...)”                                              Ralph Waldo Emerson   Existem eventos que possuem um começo sem fim. Perseguem uma in_de_termin_ação futura na travessia pelas antigas pontes. Neles é possível vislumbrar uma sombra suspeita, como algo mais a perturbar a lógica bem ajustada das convicções. Assim a grafia parece se orientar por um ontem a perdurar. Atitude rarefeita de olhares a perseguir buscas contaminadas. Esse contágio parece querer singularizar a pluralidade de cada um. Aprecia a menção de fatos acontecidos no prolongamento do instante. Aparecem como atuação simultânea de um em outro, seu paradoxo dilui-se numa dialética de integração.    Uma de suas características é realçar ...

Atípicos*

A crescente onda de diagnósticos e da busca pela conscientização da ideia da presença de inúmeros "atípicos" na sociedade tem mostrado algo a se refletir: talvez, ninguém seja realmente "normal". Os diagnósticos de "transtornos", "síndromes" ou "doenças" mentais ou físicas têm servido para justificar a dificuldade de pessoas para se "enquadrar" entre os "normais". O problema consiste em justamente não haver a percepção de que essa "normalidade" não está em lugar ou em pessoa nenhuma. Trata-se de critérios abstratos, noções ideais sobre características de alguém "normal". Se quase metade da população possui alguma característica que a distingue desse ideal de normalidade, não seriam esses aspectos "normais" na humanidade? Não no sentido de uma normalidade "etérea", descolada da vida. Trata-se, antes, da constatação de que, no fundo (e nem tão fundo assim), cada pessoa é singular...

Revista da Casa da Filosofia Clínica Verão 2025 - Ed. 15

  A Edição de Inverno da Revista da Casa da Filosofia Clínica é um contraponto a esses dias onde prospera a ideologia da desinformação, disseminando equivocidades para a multidão de desavisados.  Ela oferece matéria-prima diferenciada aos estudos e reflexão questionadora, num convite para mudar o ângulo de visão. Boa leitura! CLIQUE AQUI PARA LER

O que a Filosofia Clínica nao é*

Não tendo pretensão de definir um conceito sobre o que é a Filosofia Clínica (F.C.), mas antes convidá-lo a refletirmos sobre alguns aspectos daquilo que ela não é, me apresento: Sou Ancile, habilitada à pesquisa em F.C. e Graduada em Psicologia. Atuo com psicoterapia de inspiração existencialista há 12 anos. Se no Novo Paradigma ainda me sinto como uma criança sendo alfabetizada, na área psi posso dizer que já concluí as “séries iniciais” e me sinto segura para propor a tentativa de traçarmos um paralelo no sentido de ressaltar as diferenças essenciais de cada área. Trago algumas características metodológicas das 3 grandes áreas  psis , Psicologia, Psicanálise e Psiquiatria, suas diferenças entre si e em relação à Filosofia Clínica. Começando pela Psicologia, fundada em 1879 por Wilhelm Wundt (1832-1920), a partir da criação do Laboratório de Psicologia Experimental na Universidade de Leipzig, Alemanha. São muitas escolas de pensamento desde então, com variadas teorias que buscam,...

A virtude como sustentabilidade: o olhar estoico sobre o mundo natural*

  A filosofia dos estóicos gregos da primeira fase nos recorda que, a natureza se expressa no homem como racionalidade. Seguir o intelecto, portanto, é agir corretamente e em consonância com o todo. A “physis” não é apenas cenário, mas origem da ética: é dela que parte a reflexão sobre como deve ser o agir humano. Para os filósofos já referidos, o escopo da vida é a felicidade, e esta se alcança vivendo “segundo a natureza”. Viver segundo a natureza significa conciliar-se com o próprio ser racional, conservando-o e atualizando-o plenamente. A virtude, nesse horizonte, não é uma abstração, mas uma prática cotidiana de harmonia com o cosmos. No entanto, ao olharmos para o presente, percebemos um contraste. A ciência moderna, em grande parte, tornou-se interventiva, orientada por um modelo de produção cumulativo. Essa postura rompe com a harmonia que a cosmologia estoica evocava, substituindo o diálogo com a natureza por uma tentativa de dominá-la. Vivemos na atualidade sob o pe...

Filosofia Clínica e discurso existencial

Para ler o texto clique no link: Filosofia clínica e discurso existencial | Sílex   

A temporada de um velho*

“A velharia poética tinha boa parte da minha alquimia do verbo.”  ( Arthur Rimbaud) A vida serpenteia na solidão de Rimbaud, o melhor de tudo é o sono bêbado na praia, o movimento que pertence aos esquecidos do século, e nem mesmo a dor desfaz a realeza poética e o desejo dos esquecidos. O tesão não se contém, invade a vida na dor do corpo, até acalmar o medo e escolher seu lugar para descansar. E os ossos aquebrantados, diante do preparo da pátina nas paredes da alma, nessa bruta solidão que vomita no meu país envelhecido por sua riqueza cruel, e que não deixa revelar a imagem empenada na parede nua da vida, nas entranhas do medo que o totalitarismo faz nos velhos deste lugar, um misto cruel de racismo sem consciência, com absoluta naturalidade das desculpas e esquecimento do todo secular chamado, perdoar sem reparar. E nunca vai embora, continua escorrendo na idade da razão entre os dedos trêmulos, segura a vida que escapa, mergulha o corpo embebido em papel de livro – lá o movim...

Esquizofrenia?*

"O que quero enfatizar agora, desde o início, é que a alegação de que algumas pessoas têm uma doença chamada esquizofrenia (enquanto outras supostamente não têm) foi baseada apenas na autoridade médica e não em qualquer descoberta médica; que foi, em outras palavras, resultado de uma decisão política e ética e não de um trabalho empírico ou científico." Thomas Szasz.  Esquizofrenia: el símbolo sagrado de la psiquiatria .  p. 13 Os comportamentos humanos podem ser considerados normais ou anormais somente em referência a algum padrão. E isso não é novo. Os primeiros estabelecimentos de reclusão ou confinamento de pessoas “anormais” vêm antes do século XV e essa prática de avaliação de anormalidade muito antes desse tempo.  No entanto, as explicações sobre esses comportamentos podem ser de várias áreas tais como sociais, antropológicas, éticas, políticas etc., mas não médica. A não ser que esta pessoa tenha uma lesão no cérebro onde diretamente esteja afetada suas condições ...

Como era a Filosofia Clínica em Porto Alegre no final dos anos 1990 e início de 2000? Vai uma pista...